Apresentação
[topo]
A
educação a distância já tem história, mas só agora vive
seu boom com a internet. Mesmo que ainda prevaleçam
os suportes tradicionais (o impresso via Correio, o
rádio e a tv), não há dúvida de que seu futuro promissor
é online. Este livro parte dessa certeza e vem atender
à crescente demanda por essa modalidade educacional
agora potencializada pelas tecnologias digitais na cibercultura,
na sociedade da informação.
A EAD online é exigência da cibercultura, isto é, do
conjunto imbricado de técnicas, práticas, atitudes,
modos de pensamento e valores, que se desenvolvem juntamente
com o crescimento do ciberespaço, isto é: do novo ambiente
comunicacional que surge com a interconexão mundial
de computadores e das memórias dos computadores; principal
suporte de trocas e de memória da humanidade a partir
do início do século 21; novo espaço de comunicação,
de sociabilidade, de organização, de informação, de
conhecimento e, claro, de educação.
A EAD online é demanda da sociedade da informação, isto
é, do novo contexto sócio- econômico-tecnológico engendrado
a partir do início da década de 1980, cuja característica
geral não está mais na centralidade da produção fabril
ou da mídia de massa, mas na informação digitalizada
como nova infra-estrutura básica, como novo modo de
produção. O computador e a internet definem essa nova
ambiência informacional e dão o tom da nova lógica comunicacional,
que toma o lugar da distribuição em massa própria da
fábrica e da mídia clássica, até então símbolos societários.
Cada vez se produz mais informação online socialmente
partilhada, é cada vez maior o número de pessoas cujo
trabalho é informar online, cada vez mais pessoas dependem
da informação online para trabalhar e viver. A economia
se assenta na informação online. As entidades financeiras,
as bolsas, as empresas nacionais e multinacionais dependem
dos novos sistemas de informação online e progridem,
ou não, à medida que os vão absorvendo e desenvolvendo.
A informação online penetra a sociedade como uma rede
capilar e ao mesmo tempo como infra-estrutura básica.
A educação online ganha adesão nesse contexto, garantindo
aprendizagem na flexibilidade e na interatividade próprias
da internet.
A despeito da infoexclusão generalizada e da necessidade
de maior investimento financeiro, é crescente a adesão
das escolas, universidades, empresas, dos gestores,
professores e estudantes à educação online. E as citadas
flexibilidade e interatividade próprias do computador
conectado à internet são fatores determinantes desse
crescimento.
De sua residência, do seu trabalho, de um cibercafé,
da escola ou da universidade, em seu ritmo pessoal,
o aprendiz encontra no computador conectado a possibilidade
de intervenção nos fluxos de informação e nos processos
de aprendizagem podendo atuar individual e colaborativamente
na construção do conhecimento. Ou seja, para se fazer
regularmente um curso de qualidade, interagindo com
o professor, com os conteúdos de aprendizagem e com
os colegas de classe, não temos necessariamente que
nos deslocar para um lugar determinado.
Juntamente com essa flexibilidade espacial e temporal,
o computador conectado à internet permite ao aprendiz
a interatividade, isto é, diálogo, criação e controle
dos processos de aprendizagem mediante ferramentas de
gestão e autoria. Diferindo-se profundamente da tv enquanto
máquina rígida, restritiva, centralizadora porque baseada
na transmissão de informações elaboradas por um centro
de produção, o computador conectado apresenta-se como
sistema aberto aos interagentes, permitindo participação
e intervenção na troca de informações e na construção
do conhecimento.
Essas disposições próprias do computador conectado requerem,
da parte das escolas, universidades e empresas, qualitativos
investimentos na gestão da educação online. É preciso
não subutilizar o computador conectado. Mais do que
isso, é preciso garantir educação de qualidade. Curiosamente,
tais disposições do computador conectado estão em sintonia
com indicadores de qualidade em educação. Diálogo, troca
de informações e de opiniões, participação, intervenção,
autoria criativa e colaborativa são ingredientes do
que há de mais essencial em educação cidadã. No entanto,
é preciso investir muito na formação de gestores e de
professores capazes de ousar em educação online.
Fazer educação online não é o mesmo que fazer educação
presencial ou a distância via suportes tradicionais.
Isso exige metodologia própria que pode, inclusive,
inspirar mudanças profundas no modelo da transmissão
que prevalece na sala de aula presencial infopobre.
Falo em educar com base no diálogo, troca, participação,
intervenção, autoria, colaboração. É certo que essa
metodologia não é prerrogativa do computador conectado,
mas tem nele possibilidades de potencialização.
O professor precisa preparar-se para professorar online.
A pregnância histórica da pedagogia da transmissão exigirá
formação continuada e profunda capaz de levá-lo a redimensionar
sua prática docente tendo claro que não basta ter o
computador conectado em alta velocidade de acesso e
ampla disponibilização de conteúdos para assegurar qualidade
em educação. Em lugar de ensinar meramente, ele precisará
aprender a disponibilizar múltiplas experimentações,
expressões e uma montagem de conexões em rede que permita
múltiplas ocorrências. Em lugar de transmitir meramente,
ele será um formulador de problemas, provocador de situações,
arquiteto de percursos, mobilizador da experiência do
conhecimento. Para isso contará com ferramentas ou interfaces
que compõem o ambiente virtual de aprendizagem, onde
acontecem interatividade e aprendizagem (fórum, chat,
texto coletivo, portfolio, midiateca e videoconferência
no modelo todos-todos).
Precisará, inicialmente, vencer o preconceito que já
alimentava com a educação a distância em suportes tradicionais,
agora ampliado com a educação online. Antes o professor
desconfiava da ausência do olho-no-olho, considerado
essencial no ensino e na avaliação, ou sentia-se ameaçado
por qualquer tecnologia analógica cuja performance de
transmissão estivesse acima da sua. Hoje ele tem a infoexclusão
vitimando-o, tornando-o arredio, desabilitado, resistente,
conservador e, por fim, preconceituoso diante das tecnologias
digitais e da educação online.
O professor infoincluído precisará também vencer preconceitos.
Permanece a desconfiança com a ausência do olho-no-olho
para o ensino e para a avaliação. Todavia, há outras
desconfianças por vezes procedentes. Há aquelas geradas
em reação à febre mercadológica de empresas e instituições
de ensino se lançando com sofreguidão em busca do mercado
garantido, fácil e barato, sem assegurar aos usuários
qualidade das redes disponíveis e disponibilidade de
serviços de apoio ou suporte. E há também a desconfiança
gerada ante a baixa qualidade dos cursos baseados na
disponibilização de conteúdos fechados, à maneira da
apostila eletrônica com monótonos exercícios de verificação.
Esse amplo preconceito vem dispersando ou afastando
investimentos em políticas públicas, sociais e empresariais
capazes de ousar em educação online. No Brasil a educação
a distância ganha incentivo, valorizando igualmente
os suportes tradicionais e as tecnologias digitais.
Consórcios e parcerias foram criados, mas poucos avançam
em suas metas. Instituições públicas, particulares e
corporativas buscam soluções próprias e muitas vezes
num clima de salve-se-quem- puder.
A Portaria do MEC nº. 2.253, de 18 de outubro de 2001,
significa grande incentivo à graduação online. Conhecida
como "Portaria dos 20%", garante às instituições de
ensino superior a opção de oferecer até 20% de suas
disciplinas regulares na modalidade a distância, que
tende a transitar dos suportes tradicionais para a internet.
Acelera a sofreguidão dos interesses mercadológicos
por lucro imediato, mas ao mesmo tempo amplia o engajamento
em educação cidadã.
Este livro reúne diversas contribuições ao debate que
encontra na educação online o mais novo caminho na direção
da educação cidadã. Reúne em polifonia exuberante teorias
e experimentações destiladas na pesquisa engajada de
dezenas de instituições brasileiras de ensino público,
privado e corporativo. Seja com a voz experiente e sensível
ao espírito do tempo, seja com a do neófito, do recém-mobilizado
pela educação na cibercultura, na sociedade da informação,
estamos todos no mesmo barco tendo em mente que navegar
é preciso e educar é urgente.
Composto de quatro partes, este volume aborda inicialmente
os fundamentos da aprendizagem online, mostrando a urgência
de novos investimentos para além das tradicionais metodologias
que resultam na obsolescência da sala de aula presencial
baseada na pedagogia da transmissão ou no modelo um-todos.
Em seguida, reúne diversas inteligências coletivas envolvidas
arrojadamente com o tratamento da sala de aula online
ou com o ambiente virtual de aprendizagem, mostrando
na prática as possibilidades técnicas da efetiva autoria
cooperativa na aprendizagem a partir da flexibilidade
espaço-temporal e da interatividade no modelo todos-todos.
Na terceira parte, a ênfase é no debate sobre a tão
desconhecida legislação específica, mostrando que a
consistência das ações depende do acompanhamento e da
criteriosa avaliação das regras e normas para realização
significativa da qualidade. Finalmente, o cuidado com
a formação corporativa desenvolvida na empresa que não
apenas capacita funcionários eficazmente, mas que concomitantemente
os educa.
Com tessituras na polifonia visando aconchegar o professor
inforrico e o infopobre, o gestor de educação e de formação
corporativa, a seguir apresento as sínteses dos artigos
oferecidas pelos próprios autores,. Convido-os assim
ao diálogo! Convido-os à troca, à participação, à intervenção
criadora e à autoria colaborativa. Convido-os a desvencilhar-se
de preconceitos, a redimensionar sua autoria na sala
de aula presencial e online. Enfim, desejo interagir
com sua ousadia em educação no nosso tempo.
[topo]
Parte 1: Fundamentos da aprendizagem
online [topo]
De início As sereias do ensino eletrônico. Neste texto
Paulo Blikstein observa que, apesar do potencial de
mudanças das novas tecnologias e do discurso capturado
de educadores progressistas, o paradigma da educação
tradicional tem preponderado em um grande número de
experiências, com o simples encapsulamento de conteúdo
instrucional em mídias eletrônicas. Em seguida, discute
as possíveis causas e conseqüências desse processo,
como a integração da educação ao universo do consumo
de massa, as demandas do novo mundo do trabalho à universidade
e as promessas da educação online. Ao final, propõe
princípios para a construção de ambientes de aprendizagem
alternativos, utilizando as tecnologias como matéria-prima
de construção e não só como mídia de transmissão de
informações.
Em seguida, José Manuel Moran apresenta valiosas Contribuições
para uma pedagogia da educação online. Para ele, existe
no Brasil uma grande variedade de cursos online: cursos
para poucos e para muitos alunos, cursos com pouca e
muita interação, cursos centrados no professor e cursos
centrados nos alunos, cursos que utilizam uma (internet,
videoconferência, teleconferência) e outros que integram
várias tecnologias. Para cursos com grandes grupos,
o processo de organização do ensino-aprendizagem online
é muito mais complexo do que o que realizamos no presencial,
o que requer uma logística nova, que só agora está sendo
testada com mídias telemáticas. Neste contexto, alerta,
os papéis do professor se multiplicam, diferenciam e
complementam, o que exige uma grande capacidade de adaptação,
de criatividade diante de novas situações, propostas
e atividades.
No texto Criar e professorar um curso online: relato
de experiência, sustento que, em educação online, é
fundamental não subutilizar a disposição comunicacional
própria da internet: a interatividade. Isto é: para
superar o ambiente virtual de transmissão que apenas
acomoda pacotes de informação e de exercícios a serem
assimilados e cumpridos, precisamos investir na criação
de cursos interativos, baseados em ambientes virtuais
de aprendizagem que permitam a participação e a colaboração
dos aprendizes na construção da comunicação e do conhecimento.
Uma convicção acadêmica exposta em Sala de aula interativa
(Quartet, 2000) foi plenamente confirmada quando me
tornei um professor online e precisei formatar e executar
um curso via internet que rompesse com a prevalência
da pedagogia da transmissão. Neste relato, compartilho
o caminho que percorri em busca da educação online interativa.
Tomando orientação teórica semelhante, em Instrucionismo
e nova mídia, Pedro Demo alerta para a dificuldade de
se estabelecerem relações pedagógicas adequadas entre
educador e educando, no espaço escolar em que predomina
o autoritarismo das propostas que vêm de fora e de cima
para baixo, uma questão que, segundo o autor, penetrou
também o ambiente da inteligência artificial, cuja fundamentação
principal tem origem na biologia e assevera a diferença,
pelo menos por enquanto, entre a inteligência humana
– complexa, não-linear – e a artificial – digital, seqüencial,
linear. Talvez por isso, acredita Demo, o problema maior
da educação a distância não seja, em absoluto, carência
tecnológica (esta já sobra), mas carência de aprendizagem.
Ainda segundo ele, há cada vez mais consenso em torno
do potencial infinito da nova mídia, desde que saibamos
salvaguardar o compromisso com a aprendizagem.
Ao falar de sua experiência junto ao NCE – Núcleo de
Comunicação e Educação da Escola de Comunicações e Artes
da USP –, no artigo EaD como prática educomunicativa:
emoção e racionalidade operativa, Ismar de Oliveira
Soares apresenta um contexto de resistências à aprendizagem
online e sugere como superá-lo. Segundo ele, os projetos
e-learning têm sido objeto de severas críticas por parte
dos que defendem uma educação de qualidade, essencialmente
desvinculada do caráter mercantilista com que em muitos
países esta nova modalidade de prestação de serviços
viria sendo implantada. Além disso, outros deixariam
de aderir à educação a distância por considerar que
a interatividade disponibilizada pelas novas tecnologias
não conseguiria ocultar a frieza das relações e a natureza
pedagogicamente fechada de muitas iniciativas na área.
Para superar tais dificuldades, relata Soares, o NCE
decidiu desenvolver um projeto que unisse seriedade
acadêmica e envolvimento afetivo, o que deu origem ao
Educom.TV , experiência que mobilizou, ao longo de sete
meses, 2.240 professores da rede pública de educação
do Estado de São Paulo.
Cristiane Nova e Lynn Alves, no artigo Estação online,
a "ciberescrita", as imagens e a EAD, realizam uma reflexão
sobre as formas de apropriação das linguagens imagéticas
e audiovisuais, que a sociedade contemporânea vem realizando.
Ao fazê-lo, convidam à discussão sobre o potencial cognitivo
das imagens e as possibilidades de incorporação destas
na educação de uma forma ampla e, mais especificadamente,
no ensino online.
No texto O material didático na educação a distância
e a constituição de propostas interativas, Aluízio Belisário
observa que o avanço da educação a distância nas universidades
brasileiras e estrangeiras e seu tratamento como "ferramenta
de educação de massas" têm gerado as mais diversas experiências
e expectativas. E conclui que, embora a EAD, como metodologia
educacional, não seja exatamente uma novidade, sua adoção
conjugada com a utilização de ferramentas disponíveis
na internet vem se constituindo no grande esforço de
muitos educadores nos últimos anos.
No artigo Interatividade e aprendizagem colaborativa
em um grupo de estudo online, Gilse T. Lazzari Perosa
e Marcelo Santos fazem mais um relato de experiência
envolvendo o que chamo de disposição comunicacional
própria da internet: a interatividade. A experiência
em questão é a produção de um texto desenvolvido coletivamente
online na disciplina O Audiovisual no Ensino, do Curso
de Pós-Graduação lato sensu Educação em Arte e as Novas
Tecnologias, oferecido pela Coordenadoria de Educação
Aberta e a Distância da Universidade Federal de Mato
Grosso do Sul. Como relatam os autores, a experiência
explorou as possibilidades da internet como meio de
comunicação, de forma a desenvolver a interatividade
e proporcionar aos alunos uma aprendizagem colaborativa,
a partir da interação entre sujeitos mediados pelo computador.
Em um texto direto e irônico que, como queria Oswald
de Andrade, leva em conta a "contribuição milionária
de todos os erros", Wilson Azevedo "ensina" Como "detonar"
com um projeto de educação online. Para ele, em meio
ao boom vivido na educação online na passagem do século
XX para o XXI, joio e trigo aparecem misturados e muitas
iniciativas parecem ter sido especialmente projetadas
para o fracasso. Ainda segundo Azevedo, como o erro
oferece excelente oportunidade para a aprendizagem,
vale a pena, por contraste, expor as lições que podem
ser extraídas destas experiências, destes "mandamentos
do fracasso", passos que, quando seguidos, parecem levar
a problemas relativamente graves, resultados pífios,
prejuízos morais e materiais.
Ead sim. Mas com qual biblioteca? é a questão que levanta
Solange Puntel Mustafá em texto que discute a importância
da biblioteca virtual para o ensino a distância e apresenta
o bibliotecário como elemento indispensável numa equipe
de EAD, uma vez que, segundo a autora, ele conhece as
fontes e as formas de organização da informação, o que
lhe possibilitaria atuar inclusive como tutor. Mustafá
recomenda a intervenção do bibliotecário já na fase
de planejamento do curso para que a biblioteca resultante
seja um produto/processo tão importante quanto os demais
componentes curriculares e se adeqüe satisfatoriamente
ao curso a que se destina.
João Vianney faz uma provocação, com Online quer dizer
moderno, não sabia? Como desde 1996 participa da implantação
de cursos online no Brasil colhendo êxitos e fracassos,
Vianney faz mais do que discutir o pressuposto de que
o uso de novas tecnologias em educação a distância,
em especial a internet, promove a democratização do
acesso ao conhecimento. Em estilo literário e ousado,
fora do formato acadêmico, apresenta a chegada da nova
educação a distância a um pequeno município brasileiro,
destacando aspectos da realidade que, muitas vezes,
surpreenderam as equipes e as instituições em que trabalhou.
Encerrando a primeira parte do volume com Educação com
tecnologias digitais: uma revolução epistemológica em
mãos do desenho instrucional, Andrea Cecília Ramal traz
ao debate a qualidade do desenho instrucional. Ela parte
do princípio de que a EAD realizada com tecnologias
digitais pode colaborar com uma verdadeira revolução
epistemológica e com uma série de mudanças nas formas
de aprender. Entretanto, observa que existe também o
risco de reproduzir os problemas da educação tradicional,
mudando apenas as roupagens. Seu artigo apresenta a
importância de um excelente projeto de desenho instrucional
para construir cursos a distância coerentes com os novos
paradigmas educacionais, comentando ainda alguns princípios
pedagógicos que devem sempre ser levados em conta na
EAD.
[topo]
Parte 2: Ambientes
virtuais de aprendizagem [topo]
Maria Elizabeth Bianconcini de Almeida inicia a segunda
parte deste volume com Educação, ambientes virtuais
e interatividade. Neste artigo, sustenta que a utilização
da tecnologia de informação e comunicação - TIC ou tecnologia
digital como suporte para a educação presencial ou para
a educação a distância – pode promover a interatividade
graças à internet. No entanto, observa que as práticas
educativas com o uso da TIC oscilam entre as tradicionais
formas mecanicistas de transmissão de conteúdos digitalizados
e os processos de produção colaborativa de conhecimento
em atividades de educação sistemática (em menor escala)
e, principalmente, em comunidades de aprendizagem. Sua
intenção é analisar o significado de alguns conceitos
fundamentais a essas práticas com o objetivo de aprofundar
a compreensão sobre equívocos e avanços no uso de ambientes
virtuais em educação.
Articulação de saberes na EAD on-line: por uma rede
interdisciplinar e interativa de conhecimentos em ambientes
virtuais de aprendizagem de Edméa Oliveira dos Santos
é um convite a todos os especialistas envolvidos com
os processos produtivos de gestão e de práticas curriculares
na modalidade de EAD online interessados no repensar
de suas ações, tanto no que tange à articulação de saberes
e competências, quando na postura comunicacional entre
os sujeitos envolvidos em ambientes virtuais de aprendizagem
(AVA). O texto procura ainda desmistificar o conceito
de AVA sinalizando a importância da utilização de interfaces
gratuitas encontradas no ciberespaço.
No artigo Participação e avaliação no ambiente virtual
AulaNet da PUC-Rio, Hugo Fuks, Leonardo Magela Cunha,
Marco Aurélio Gerosa e Carlos José Pereira de Lucena
sustentam que, na aprendizagem colaborativa em curso
baseado na web, é preciso avaliar as interações do indivíduo
com seus colegas em vez de apenas progressos e atividades
individuais. A propósito, informam que o ambiente de
ensino-aprendizagem AulaNet oferece relatórios de acompanhamento
de participação que dão ao grupo informações para uma
análise quantitativa e qualitativa da sua performance.
O artigo discute ainda os aspectos referentes a esta
forma de avaliação e apresenta o Curso de Tecnologias
de Informação Aplicadas à Educação para exemplificar
a utilização do ambiente num curso ministrado completamente
a distância.
No texto Construindo um ambiente de aprendizagem a distância
inspirado na concepção sócio-interacionista de Vygotsky,
Adja Ferreira de Andrade e Rosa Maria Vicari apresentam
o projeto de ambiente computacional para ensino a distância
desenvolvido no Programa de Pós- Graduação em Informática
na Educação e no Instituto de Informática da Universidade
Federal do Rio Grande do Sul. Segundo elas, na busca
de uma estreita relação entre as metodologias de construção
de software educacional e a teoria sócio-interacionista
está sendo proposta uma abordagem que visa construir
um modelo computacional a partir de aspectos da teoria
de Vygotsky. A idéia é encontrar, nos modelos de agentes,
perspectivas promissoras para educação presencial e
a distância. A tecnologia de agentes e sistema multiagentes,
relatam, é utilizada para auxiliar a aprendizagem do
aluno e significa um novo passo em direção à socialização,
propiciando interação e cooperação entre agentes humanos
e artificiais.
Em Desafio para EAD: como fazer emergir a colaboração
e cooperação em ambientes virtuais de aprendizagem?,
Alexandra Lilavati Pereira Okada reflete sobre as concepções
de aprendizado colaborativo e cooperativo na Educação
a Distância e analisa interfaces, dinâmicas, estratégias
e o papel do mediador pedagógico para fazer emergir
a cooperação e colaboração em ambientes virtuais de
aprendizagem. Seu trabalho discute não só concepções
teóricas relevantes, como também, alguns exemplos decorrentes
de uma prática vivenciada num curso semipresencial de
uma disciplina de pós-graduação. No final, destaca e
comenta quatro elementos que considera importantes:
(1) a emergência espontânea de intencionalidades coletivas,
(2) problematizações contextualizadas decorrentes de
trocas de experiências, (3) a cooperação decorrente
da parceria e do prazer em "estar junto", e (4) a cooperação
visando a aprendizagem transformadora.
A experiência Aula Virtual e Democracia, desenvolvida
de 1999 no âmbito do CEAD/UnB Virtual, sob responsabilidade
de Raquel de Almeida Moraes (UnB) e com a colaboração
do professor Ilan Gur-Ze´ev (Universidade de Haifa,
Israel), é o tema de Linguagem da WEB no CEAD/UnBVirtual,
artigo assinado por Raquel de Almeida Moraes e Lino
Vaz Moiz. O texto explicita o objetivo do projeto (desenvolvimento
da cultura democrática em espaços além dos presenciais,
como o ciberespaço – internet ou WEB –, implementando
uma linguagem de comunicação entre professores e alunos
capaz que promover os processos democráticos, seja na
produção de conhecimentos e da cultura, seja na própria
vida, entendida em sua dimensão político-existencial
e espiritual) e seus resultados ao longo de quatro anos.
Outro estudo de caso, especialmente bem-vindo ao debate
por enfocar a formação de professor, está em Organização
de atividades de aprendizagem utilizando ambientes virtuais,
de Fabiane Barreto Vavassori e André Luís Alice Raabe.
O artigo relata uma experiência na organização de um
curso a distância para capacitação de professores, utilizando
a internet como tecnologia de comunicação e informação.
A partir de uma breve revisão da literatura sobre o
tema, o que permite caracterizar o contexto em que se
desenvolveu a experiência analisada, Carolina Paz, Flavia
Lumi Matuzawa, Giovana Schuelter, Marialice de Moraes,
Patricia Jantsch Fiuza e Simone Cristina Vieira Machado
assinam o artigo Monitoria online em educação a distância,
cujo objetivo é apresentar a estrutura de apoio ao aluno
desenvolvida pelo LED/UFSC, com ênfase na utilização
da internet e da videoconferência.
No artigo Algo de novo sob o sol?, Marilú Fontoura de
Medeiros, Joyce Munarski Pernigotti, Rubem Mário Figueiró
Vargas, Anamaria Lopes Colla, Beatriz Regina Tavares
Franciosi, Gilberto Mucilo de Medeiros e Maria Bernadette
Petersen Herrlein realizam "capturas de traçados possíveis
na construção de conhecimeno produzido em EAD", destacando
"desafios e intensidades do vivido". O artigo analisa
as práticas, a organização teórico-prática e os processos
de gestão que permitem constituir ambientes cooperativos
de aprendizagem. Para os autores, um dos acontecimentos
de grande intensidade que os tem afetado na produção
dessas práticas, é a constatação de que "somos o que
fazemos, nas intensidades e fluxos que atribuímos a
esse fazer". As análises são feitas a partir de um Curso
de Capacitação Docente-CCD, em Educação a Distância-EAD
oferecido aos professores da PUC-RS.
Em Usabilidade e a padronização no e-learning, André
de Abreu de Sousa observa que o desenvolvimento da internet
como ferramenta de educação a distância traz novos desafios
inadiáveis. Destaca o exemplo de um mesmo aluno que
cursar várias disciplinas num ambiente de ensino em
que a ausência de uma padronização mínima entre essas
disciplinas o obriga a reaprender toda a navegação da
interface digital inúmeras vezes. Para evitar isso,
sugere o recurso às heurísticas de usabilidade de Jakob
Nielsen ou de outros autores, sustentando que uma padronização
mínima facilita a vida de alunos, equipe de produção
e professores.
No artigo que encerra a parte dedicada a ambientes virtuais
de aprendizagem, TelEduc: software livre para Educação
a Distância, Heloísa Vieira da Rocha apresenta um ambiente
para a criação, participação e administração de cursos
na web desenvolvido, a partir de 1997, pelo Núcleo de
Informática Aplicada à Educação (NIED) da Universidade
Estadual de Campinas (Unicamp). Segundo a autora, em
fevereiro de 2001 foi pioneiramente disponibilizada
sua primeira versão como um software livre, que seria
adotado por várias instituições públicas e privadas.
Para finalizar, observa que o TelEduc apresenta características
que o diferenciam dos demais ambientes para EaD disponíveis
no mercado, como a facilidade de uso por não especialistas
em computação, flexibilidade quanto ao modo de utilização
e um conjunto enxuto de funcionalidades.
[topo]
Parte 3:
A legislação específica [topo]
Quem abre a discussão sobre a legislação atual é Francisco
José da Silveira Lobo Neto, com o artigo Regulamentação
da educação a distância: caminhos e descaminhos, no
qual analisa o que dispõe sobre EAD a LDB de 1996 e
outros documentos normativos complementares e aborda
temas como credenciamento institucional, autorização
e avaliação de cursos, validade de certificados e diplomas.
Segundo o autor, o conhecimento das normas deve ser
relacionado ao projeto pedagógico da sociedade e à necessidade
de qualidade humana socialmente referenciada. E a consistência
das ações depende de acompanhamento e criteriosa avaliação,
com resultados divulgados, para que se produzam parâmetros
de revisão de regras e normas para realização significativa
da qualidade.
Em A portaria nº 2.253/2001 no contexto da evolução
da educação a distância nas instituições de ensino superior
do Brasil, Adylles Castello Branco comenta a chamada
"Portaria dos 20%", dentro de um contexto mais amplo
da educação a distância, destacando as influências norma
na prática pedagógica de professores das Universidades
por ela beneficiadas. Sua análise é mais voltada para
a questão pedagógica do que para a questão legal strictu
sensu e, sem pretender ser exaustiva, busca estimular
uma maior discussão sobre este tema dentro das Instituições
de Ensino Superior. Seu intuito é, claramente, estimular
um começo de conversa sobre o assunto.
Ainda sobre a "Portaria dos 20%", no artigo Portaria
2.253/01 - leitura breve, Roney Sginorini se debruça
sobre aspectos essenciais da lei, avaliando-a positivamente.
Para ele, "educação a distância não é distância da educação"
e com tal Portaria o MEC dá um importantíssimo passo
conduzindo a educação para o futuro, via novas tecnologias,
nas instituições de ensino superior.
E tratando de outro aspecto relevante da legislação
específica, o artigo Questões relevantes do ensino a
distância e seus efeitos (implicações) no direito da
propriedade intelectual, de Eleonora Jorge Ricardo e
José Carlos Vaz e Dias, encerra esta parte do livro
dedicada à legislação em EAD online. Nele, os autores
tanto denunciam a inobservância de direitos de propriedade
intelectual por cursos de EAD como lamentam a perda
de negócios pelo desconhecimento legal de direitos e
obrigações relacionados ao desenvolvimento das ferramentas
utilizadas nesta modalidade educacional.
[topo]
Parte 4:
Formação corporativa [topo]
Num contexto em que o conhecimento é o grande diferencial
de mercado e a educação tem um papel estratégico nas
empresas, a Educação a distância aparece como ferramenta
sob medida para o ensino corporativo porque possibilita
a aprendizagem de forma autônoma, flexível e a um custo
competitivo. A afirmação é de Renata Ribeiro de Luca,
autora do artigo Educação a distância: ferramenta sob
medida para o ensino corporativo, que abre a última
parte deste volume. Para que a EAD seja mesmo eficaz
nas empresas, a autora sustenta que o modelo pedagógico
adotado deve ser o construtivista sócio-interacionista,
único capaz de estimular as competências básicas do
ambiente de negócios – aprender a aprender, comunicação
e colaboração, raciocínio criativo e resolução de problemas,
desenvolvimento de liderança e autogerenciamento de
carreira.
De todas as mudanças que nos acostumamos a assistir
nas organizações nos últimos quinze anos, observa André
Luís de S. Alves Pinto em EAD e educação corporativa:
caminhos cruzados, talvez não haja outra tão significativa
quanto a que vem ocorrendo na gestão de pessoas. Novos
ou apenas revisados, estes conceitos, segundo o autor,
aos poucos vão sendo traduzidos em novas práticas, sobretudo
na atividade de Educação Corporativa. Seu artigo se
propõe a relacionar algumas destas tendências e identificar
possíveis contribuições do emprego da educação a distância,
oferecendo a iniciantes em EAD a oportunidade de formar
uma opinião mais consistente a respeito da conveniência
de implantar projetos de capacitação a distância em
suas organizações e a educadores mais experientes a
oportunidade de rever caminhos ou mesmo organizar suas
experiências anteriores nesta atividade.
Depois de observar que os modelos antigos de educação
a distância, graças às novas tecnologias e à internet,
são substituídos pelo e-learning, que está nos planos
do Ministério da Educação para aumentar o número de
vagas nas universidades, René Birocchi, em O sistema
de valor do e- learning, se propõe a elaborar um mapa
do e-learning no Brasil, por meio da divisão do segmento
em diversos estratos.
Em A capacitação de servidores do estado via cursos
online: adequando soluções às diferentes demandas, José
Armando Valente e Tânia Maria Tavares Gomes Silva avaliam
o Programa de Aperfeiçoamento da Educação a Distância
(PAEAD), criado pela a Fundação do Desenvolvimento Administrativo
(Fundap) para capacitar profissionais do setor público
utilizando basicamente duas abordagens de EAD: a broadcast
– que usa os meios tecnológicos para passar informação
aos aprendizes, nesse caso sem qualquer interação professor-aluno
– e o "estar junto virtual", um suporte ao processo
de construção de conhecimento mediado pela tecnologia,
com alta interação entre professor e aluno, e entre
os alunos. O artigo apresenta diversos cursos ali realizados
para indicar a flexibilização das abordagens citadas,
de acordo com seus diferentes propósitos educacionais.
De Faculdade isolada a Universidade Virtual: o caso
do IUVB.br – Instituto Universidade Virtual Brasileira
é título do artigo de Carmem Maia, que encerra o presente
volume. No artigo, a autora destaca o pioneirismo e
os êxitos do Instituto mostrando "seus percursos e percalços",
discute as tendências do formato de ensino superior
e convida o leitor à uma reflexão sobre a virtualização
do ensino superior e seu agregamento de valor (ou não)
ao processo de ensino- aprendizagem.
[topo]
Marco Silva Rio, ago/2003